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Entrevista com Ray Anderson

Data: 19/05/2008

Informativo n. 418 Instituto Ethos

Ray Anderson, presidente do Conselho e fundador da InterfaceFlor, empresa norte-americana de leasing de carpetes para uso doméstico e comercial, será um dos palestrantes da mesa-redonda "Liderança global para a sustentabilidade", que ocorrerá no dia 29 de maio, das 9 às 11h, durante a Conferência Internacional Ethos 2008.

Anderson é um dos líderes mundiais em gestão sustentável dos negócios. Começou a pensar nisso em 1994, quando seus clientes pediam informações sobre o posicionamento da Interface e ele percebeu que "não tinha nenhuma visão ambiental", como declarou no filme A Corporação (veja aqui esse trecho do filme, em inglês). A partir da leitura do livro The Ecology of Commerce, de Paul Hawken, mudou seu modo de pensar. E concluiu que "a menos que consigamos fazer carpetes de modo sustentável, não teremos lugar em um mundo sustentável".

Nesta entrevista exclusiva ao Notícias da Semana, Anderson fala sobre a trajetória da Interface em direção à sustentabilidade e aponta os caminhos da empresa - e das empresas - para o futuro.

Ray AndersonInstituto Ethos: O senhor se tornou um símbolo mundial da sustentabilidade. Como se sente em relação a isso?
Ray Anderson: Treze anos de imersão total no assunto me convenceram que uma sociedade sustentável para um futuro por tempo indeterminado - quer sejam sete, mil ou mais gerações - depende total e absolutamente (entre outras coisas) de uma ampla reformulação do sistema industrial guiada pela ética, desencadeada por uma igualmente ampla mudança de mentalidade. Isso ocorrerá com uma mente de cada vez, uma organização de cada vez, uma tecnologia de cada vez, um edifício, uma empresa, uma grade curricular universitária, uma comunidade, uma região, uma indústria de cada vez, até que todo o sistema tenha se transformado em um sistema sustentável, existindo eticamente em equilíbrio com os sistemas naturais da Terra, da qual todos os seres vivos dependem totalmente - inclusive a própria civilização. Saber que nosso futuro depende de tantas pessoas e organizações que ainda precisam "chegar lá" é uma grave realidade. Mas eu acredito que há muitos motivos para termos esperança.

IE: Como presidente da InterfaceFlor, como o senhor convenceu os membros do conselho da empresa sobre a sustentabilidade? O senhor enfrentou dificuldades?
RA: A Interface é muito especial no sentido de termos iniciado nossa jornada em direção à sustentabilidade em 1994. Eu era o presidente (e agora sou presidente do Conselho e fundador) e vivenciei uma manifestação divina - a percepção de que o legado de nossa empresa era o de uma indústria saqueadora do planeta. A nova visão da organização, como uma empresa sustentável e, com o tempo, restauradora, criou uma nova missão para a empresa e uma oportunidade de repensar tudo, desde como os produtos são concebidos e originados até como são manufaturados, distribuídos, instalados e recuperados. Nosso conselho de administração compartilha essa visão e, mais importante, todos os 4.000 associados da Interface em todo o mundo, que trazem suas paixões e idéias consigo para o trabalho diariamente. A sustentabilidade tem alimentado uma cultura na Interface de inovar e assumir riscos que melhorou nossos produtos como jamais imaginado, tendo energizado nossos associados com um propósito mais elevado.

IE: Como a proposta sueca 'The Natural Step' ajudou a InterfaceFlor a desenvolver estratégias para se tornar ambiental e socialmente responsável? A InterfaceFlor usou outros tipos de ferramentas, como os relatórios do modelo da Global Reporting Initiative, para medir seus impactos?
RA: O The Natural Step foi nossa primeira introdução ao pensamento sistêmico e a primeira definição clara de sustentabilidade. Ele continua a influenciar a forma como abordamos a sustentabilidade hoje. Nós organizamos nosso formato de relatório com base na GRI. As lentes do design sustentável, especialmente do Biomimetismo, um design inspirado na natureza, têm sido uma fonte de inovação na Interface, com produtos que jamais teriam sido concebidos doze anos atrás. Os designers da Interface estão constantemente se colocando questões esotéricas do tipo: como a natureza faria um piso? Ou como uma lagartixa se pendura de ponta cabeça no teto? De perguntas desse tipo surgiram os produtos de maior sucesso na história da indústria.

IE: É sabido que a InterfaceFlor teve um enorme problema em relação a consumo de energia e efluentes. Como o senhor enfrentou o problema da energia?
RA: Experimentar formas de energia renováveis e alternativas, considerando-se a quantidade e formas de energia que usamos, tem sido o foco de nossa jornada em direção à sustentabilidade. A energia renovável representa 17% do total de energia usada nas plantas da Interface. Energia de biomassa, biogás de aterros sanitários e eletricidade verde são parte de nossa estratégia global de aumentar o uso de energia renovável. Três instalações têm atualmente energia solar fotovoltaica no local e seis de onze instalações atingiram 100% de eletricidade renovável por meio de uma combinação de geração no local, compra de créditos de energia renovável e compra de eletricidade verde por meio da rede elétrica, quando disponível.

IE: Como são definidas as fontes renováveis de energia?
RA: A estratégia da Interface leva em conta a localização da instalação, a demanda de energia e o clima local. Por exemplo, a Interface, na verdade, tem plantas com energia solar nas regiões ensolaradas do sul da Califórnia e sudoeste da Geórgia, nos Estados Unidos. Em outras plantas, temos contratos com concessionárias locais para fornecimento de várias formas de energia renovável, incluindo uma planta que usa biomassa gerada em um aterro local, um projeto pioneiro da Interface com a cidade de LaGrange, Geórgia, e o projeto de aterros da EPA [programa da Agência Ambiental Americana que usa metano produzido por aterros sanitários para gerar energia]. A captura e conversão do metano em gás natural para caldeiras de plantas da Interface (e energia para outras empresas locais) tem se mostrado uma relação onde todos ganham - a empresa, que tem uma fonte de energia renovável; a comunidade, que agora respira ar mais puro; e a cidade, que tem agora uma nova fonte de receita.

IE: E o que é feito para a redução de resíduos?
RA: A redução de resíduos não apenas deixa nossa pegada ecológica mais leve, mas melhora a qualidade de nossos produtos. É mais uma das sete frentes onde a Interface busca 'pegada zero' e, até o momento, a Interface reduziu e/ou evitou mais de US$ 350 milhões em resíduos, uma economia que contribuiu com a nossa capacidade de financiar a pesquisa para desenvolvimento sustentável. A redução de resíduos é atingida em cada unidade de negócio por meio do QUEST - programa de Sugestões Qualificadas e Úteis de Equipe e Associados, em que os associados da Interface são incentivados a identificar, reduzir e evitar a geração de resíduos. Se a redução de resíduos foi inicialmente um esforço interno focado no processo de fabricação, hoje estamos liderando a redução de resíduos em outros aspectos do nosso negócio, inclusive reduzindo e evitando a geração de resíduos durante a instalação de produtos. A reciclagem é uma outra forma de reduzir os resíduos de aterros. Desde 1995, a Interface desviou mais de 50 mil toneladas de carpetes de aterros, e esse número cresce exponencialmente agora graças a investimentos em uma nova tecnologia que permite que reciclemos de forma limpa e eficiente não apenas a base do carpete, mas também as fibras ou fios do carpete - valiosas moléculas que começaram como petróleo, mas que terão vida mais vezes, quer como carpete, quer em outras indústrias como produtos plásticos reciclados.

IE: A emissão de poluentes e efluentes deixou de ser um problema?
RA: A prevenção da poluição é parte integrante de todos os esforços de sustentabilidade da Interface e tem sido atingida por meio do redesenho de processos e de eficiência. Por exemplo, o uso de água diminuiu em 80% nas plantas de carpetes. Um fator importante é a substituição da impressão com uso intensivo de energia e água por uma forma mais eficiente de confeccionar estampas em seus carpetes em placas; 56% de nossas plantas convencionais com chaminés foram fechadas devido a mudanças de processos; 84% de nossas tubulações de efluentes foram desativadas, também em conseqüência de mudanças de processos. Nossa meta é eliminar todas as plantas convencionais e tubulações de efluentes. Emissões de dióxido de carbono (CO2) de 155 milhões de milhas de viagens aéreas foram compensadas com o plantio de 75 mil árvores, apesar de admitirmos que há uma lacuna de tempo para o crescimento das árvores. As emissões de CO2 de nossa frota de veículos também foram totalmente compensadas com árvores por viagem - e outras compensações que custam somente US$ 0,025 por galão de combustível.

IE: O que o senhor quer dizer quando afirma que a InterfaceFlor eliminará todos os impactos negativos que a empresa tenha no meio ambiente até 2020? Como a empresa estará nessa data? Como o senhor atingirá essa meta?
RA: Missão Zero é o que chamamos nosso objetivo de eliminar nossa pegada negativa até 2020. Todos os esforços que descrevi acima são parte da Missão Zero. Estamos buscando a Missão Zero simultaneamente em sete metas:
- Eliminação de Resíduos. Eliminação do próprio conceito de resíduo, imitando a natureza em nossos processos industriais.
- Emissões Benignas, para não mais prejudicar a biosfera. Isso significa remodelar os insumos de acordo com nossas fábricas, trabalhando upstream.
- Energia Renovável, enfocando primeiramente a eficiência energética e depois controlando e fazendo uso de luz solar, vento, biomassa e (algum dia) hidrogênio - para cortar o cordão umbilical dos combustíveis fosseis com a Terra - e fechando qualquer "lacuna de carbono" remanescente, por assim dizer, com compensação de emissões de gases de efeito estufa devidamente verificadas.
- Fechando o Ciclo, para cortar o cordão umbilical material com a Terra na busca por matérias-primas virgens de origem fóssil, por meio da criação de fluxos cíclicos.
- Transportes Ambientalmente Eficientes, para atingir a neutralização de carbono pela eliminação ou compensação de emissões de gases de efeito estufa gerados pela movimentação de pessoas e produtos.
- Sensibilidade Social. Talvez esse seja o item mais importante e devesse estar em primeiro lugar, porque nada duradouro acontece sem ele. É a mudança de cultura, mudança de mentalidade, para sensibilizar e educar a todos, mudando as mentes de clientes, fornecedores, funcionários e comunidades, para inspirar ações ambientalmente responsáveis (as milhares de pequenas coisas que todos podemos fazer).
- Redesenho da Maneira de Fazermos Negócios, que depende de se atingir as outras seis acima. Então esperamos liderar a verdadeira economia de serviços, que vai além da idéia de pessoas vendendo serviços - contadores, consultores, advogados, professores, garçons, etc. - para a venda de serviços que nossos produtos fornecem, em vez de vendermos apenas os produtos propriamente ditos.

IE: Como o senhor vê o movimento de responsabilidade social empresarial nos próximos anos?
RA: A verdadeira responsabilidade social empresarial significa que estamos levando em conta não apenas nosso retorno econômico, mas também o impacto socioambiental de nossas decisões. Conforme os recursos vão se tornando mais escassos, temos o dever de repensar todo o sistema industrial. A transferência de processos que fazem uso intensivo de recursos para o uso intensivo de mão de obra - algumas vezes chamados de "empregos do colarinho verde" - geram ganhos para as pessoas, para o meio ambiente e para os negócios.


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